Bosco Nedelcovic no Brasil: Mais operações psicológicas envolvendo OVNIs, a CIA, a School of Living e uma infinidade de propostas




Nas partes anteriores, exploramos as alegações de Bosco Nedelcovic de que a CIA forjou abduções por OVNIs na América do Sul, que a agência perseguiu e matou acidentalmente uma testemunha de OVNI na Inglaterra e que até mesmo a abdução de Betty e Barney Hill foi mais um evento orquestrado pela CIA. Em apenas dois telefonemas com o ufólogo Rich Reynolds, Nedelcovic apontou ainda mais casos clássicos da ufologia como operações de agências de inteligência. Ele obteve grande parte dessas informações ao atuar regularmente como tradutor em vários briefings do Departamento de Defesa (DOD) entre 1963 e 1972.

Segundo Reynolds:

Nedelcovic viajava com membros da Defesa (uma função que ele ainda desempenhava em 1978) em missões oficiais no exterior e trabalhava com dignitários estrangeiros que visitavam instalações militares neste país. Ele era designado regularmente para briefings da CIA sobre OVNIs destinados a oficiais da OTAN e agentes da CIA na Europa. Oficiais da Força Aérea dos Estados Unidos e, ocasionalmente, oficiais da Marinha dos Estados Unidos participavam desses briefings. Ele não participa mais dos briefings desde 1972, mas manteve contato com outras pessoas que participaram.

Ao longo de todos esses briefings, Nedelcovic obteve fragmentos de informações que colocam em xeque muitas facetas do mistério dos OVNIs. Aparentemente referindo-se aos clássicos “homens de preto” que surgem na vida de testemunhas de OVNIs, Nedelcovic afirma que “homens da CIA eram enviados às casas de pessoas que faziam declarações públicas sobre OVNIs ou avistamentos que haviam presenciado, com o objetivo de intimidá-las”. Ele alegou ter visto o renomado pesquisador de OVNIs J. Allen Hynek em briefings da CIA nas décadas de 1960 e 1970, o que leva a questionar a polêmica afirmação de que Hynek teria participado da operação psicológica contra Paul Bennewitz. Segundo relatos, Hynek deu a Bennewitz um computador “para ‘auxiliá-lo’ em suas pesquisas sobre OVNIs”, sem revelar que o equipamento “havia sido fornecido a mando da Força Aérea dos EUA e continha um código embutido que gerava uma ‘linguagem alienígena’”. Essa afirmação pode causar polêmica no meio ufológico, mas, como observa Adam Gorightly: “Existem evidências tênues sugerindo que Hynek se encontrou com Bennewitz no período em que o computador chegou às mãos deste último”. Nedelcovic também disse a Reynolds que “o episódio dos pescadores no Mississippi foi uma experiência da CIA, mas ele não tinha conhecimento direto sobre o caso, pois já não participava dos briefings quando o fato ocorreu”. Tratava-se de uma referência aparente à abdução de Calvin Parker e Charles Hickson, no Condado de Jackson, Mississippi; eles foram levados do barco de pesca onde estavam, no Rio Pascagoula, por humanoides grandes, sem boca e com pele semelhante à de elefantes, sendo submetidos a exames a bordo de uma nave. Vale destacar a possibilidade de que, assim como no caso Villas-Boas, esses humanoides fossem, na verdade, humanos vestindo trajes semelhantes aos de mergulhadores, tendo sido identificados erroneamente.



Quem Era Bosco Nedelcovic?

Quem era Bosco Nedelcovic para fazer alegações tão incríveis? Seu histórico é compatível com o que ele afirmava sobre as operações da CIA envolvendo OVNIs? Situar sua conversa com Reynolds no contexto de outros momentos importantes de sua vida pode nos ajudar a compreender melhor quem era Bosco. De acordo com seu obituário no The Washington Post,

Nedelcovic “nasceu em Belgrado” em 7 de outubro de 1933 e(...) sua família emigrou para o Paraguai logo após a Segunda Guerra Mundial. Ele cresceu em uma fazenda nos arredores de Assunção e cursou o ensino médio na região. Se o relato de sua conversa com Reynolds for preciso, ele já trabalhava para a USAID em 1956, aos 23 anos de idade. Casou-se com Maria no mesmo ano. Embora seu obituário afirme que ele imigrou para os EUA em 1963 e começou a trabalhar como tradutor autônomo na capital Washington, ele disse, na conversa com Reynolds, que foi “enviado” aos Estados Unidos e “designado” para realizar trabalhos de tradução para o Departamento de Defesa. Independentemente dessa divergência, ele certamente começou a trabalhar para o Departamento de Defesa logo após imigrar.

Nedelcovic era fluente em servo-croata, italiano, espanhol, português e inglês, o que o tornava um profissional valioso para a comunicação com autoridades estrangeiras. Uma das primeiras menções a Nedelcovic em jornais americanos aparece na edição de 5 de dezembro de 1964 do The Record, de Hackensack, Nova Jersey, relatando que ele proferiu uma palestra sobre renda básica universal em Stony Point, Nova York. A breve nota jornalística descreve Nedelcovic explicitamente como “um estudioso da economia da ‘tripla revolução’”, indicando que ele talvez estivesse associado ao Center for the Study of Democratic Institutions — um laboratório de ideias cujas origens remontam à Fundação Ford. Em 1967, ele foi novamente mencionado em conexão com a USAID, atuando como intérprete para um grupo de homens latino-americanos que participavam de um “estudo sobre cooperativas regionais de eletrificação rural sob os auspícios da USAID”. Pelo menos alguns dos homens fotografados ao lado de Nedelcovic ainda trabalham em projetos de eletrificação rural na América do Sul e Central.



Nedelcovic se tornou cidadão americano em algum momento de 1971 e continuou a realizar trabalhos de tradução em diversas posições no Departamento de Defesa (DOD). Ele foi mencionado na edição de 11 de maio de 1971 do jornal The Pittsburgh Press como intérprete de um grupo de oficiais militares de 19 países latino-americanos que visitavam os Estados Unidos. Esse evento foi patrocinado pelo Colégio Interamericano de Defesa (IADC) e liderado pelo Major-General da Força Aérea Kermit C. Kaericher. O General Kaericher havia ocupado cargos anteriormente na Base Sandia (Novo México) e na Comissão de Energia Atômica, além de ter comandado a 341ª Ala de Mísseis Estratégicos na Base Aérea de Malmstrom.

Sua passagem como diretor do Colégio Interamericano de Defesa foi sua última função no DOD antes de se aposentar, em 1977. Menos de um ano depois, em 19 e 27 de fevereiro de 1978, Nedelcovic relataria a Rich Reynolds tudo o que foi abordado nas partes anteriores — revelando seu conhecimento interno de que grandes eventos envolvendo OVNIs eram, na verdade, operações da CIA. Embora parecesse insatisfeito com seu trabalho no DOD, segundo Reynolds, o obituário de Nedelcovic afirma que ele manteve o cargo de linguista e tradutor no IADC até 1990 e continuou trabalhando como consultor mesmo após a aposentadoria.

Ideias de Esquerda e a School of Living

Jornais parecem confirmar seus vínculos tanto com a USAID quanto com o IADC, mas também revelam seu interesse em causas de esquerda (por exemplo, sua palestra sobre renda básica universal em 1964). De fato, Nedelcovic promovia frequentemente ideias peculiares que, em sua visão, tornariam o mundo um lugar melhor; ele escrevia propostas para autoridades governamentais e militares e publicava artigos em periódicos de esquerda defendendo ideias semelhantes. Fui alertado pelo usuário do X “RobertSkvarla” sobre um artigo que Nedelcovic escreveu para a revista Anarchy: A Journal of Anarchist Ideas em 1963 (pouco antes ou logo depois de se mudar para os EUA). O artigo, “Rumo a uma Economia do Faça Você Mesmo” (Towards a Do-It-Yourself Economy), assemelha-se a algumas das filosofias do Whole Earth Catalog de Stewart Brand, promovendo “instalações comunitárias” onde “as pessoas pudessem encontrar as ferramentas e as habilidades para fabricar por conta própria(...) uma variedade de artigos para uso pessoal”. A ideia central é um apelo para que a “produção” e o “consumo” sejam aproximados “de uma maneira que satisfizesse as necessidades genuínas de cada indivíduo, sem lhe impor quaisquer necessidades ou impulsos artificiais” — basicamente, um grupo de cooperativas que tornariam os indivíduos autossuficientes. Na biografia do autor, Nedelcovic descreve-se como “um iugoslavo-italiano do Paraguai que vem colaborando com Juan Perez na busca por novas formas de organização industrial”. Ele (como era de se esperar) não menciona sua colaboração anterior com a CIA na América do Sul, deixando em aberto a possibilidade de que ele fosse um infiltrado do governo em grupos anarquistas. Embora sejam necessárias mais pesquisas sobre essa publicação e o coletivo por trás dela para confirmar ou descartar a ideia de que Nedelcovic estava envolvido em algum tipo de atividade secreta de contraespionagem do tipo COINTELPRO ou Operação CHAOS, seu trabalho para o Departamento de Defesa (DOD), tanto antes quanto logo após a publicação do artigo, torna essa especulação algo perfeitamente plausível.




Em uma carta à The Green Revolution, Nedelcovic oferece algumas pistas sobre como desenvolveu as convicções que apresenta no artigo da Anarchy. A The Green Revolution era uma publicação da School of Living (SOL), sediada em Brookville, Ohio — uma organização fundada por Ralph Borsodi e Mildred Loomis que se concentrava em um estilo de vida de retorno à natureza e na autossuficiência, temas pelos quais Nedelcovic parecia sentir afinidade. Borsodi era um adepto do georgismo que defendia o abandono das cidades industriais em favor da vida em pequenas propriedades rurais e do modo de vida agrário, ideias que promoveu em livros como This Ugly Civilization (1929) e Flight from the City (1933). Loomis juntou-se à SOL mais tarde, inspirada pelos ensinamentos de Borsodi. Em sua carta ao editor intitulada “Returns from Paraguay” (Retorno do Paraguai), Nedelcovic afirma que “deve à School of Living mais em termos de insights, contatos pessoais e comunicação do que jamais poderá retribuir”. Nedelcovic também menciona viagens à sede da School of Living, em Ohio, e o fato de estar “trabalhando em uma proposta para um programa de subsistência direta no Paraguai”.

Propostas como essa acabariam se tornando uma espécie de obsessão para Nedelcovic.

Embora o conteúdo do material enviado nessa ocasião não esteja disponível para mim, Nedelcovic recebeu uma resposta de Alfred de Grazia — especialista em operações psicológicas — que, apesar de breve, é interessante. “Infelizmente, tenho estado ocupado com tantas questões menores que não consigo me dedicar a assuntos mais importantes, como o seu”, escreveu de Grazia; essa foi uma resposta que Nedelcovic parece ter recebido repetidamente ao apresentar suas propostas. Vale destacar que de Grazia registrou o endereço de remetente de Nedelcovic como sendo o da School of Living em Brookville, Ohio, o que indica que ele passou algum tempo na sede da organização, pelo menos em 1964.

Propostas ao General Walters

Outra proposta foi enviada ao Tenente-General Vernon A. Walters, vice-diretor da CIA, quase uma década depois, em 1975. Walters desempenhou um papel importante na resposta da CIA ao caso Watergate, mas, o mais crucial, atuou como intérprete e embaixador na América do Sul na mesma época em que Nedelcovic realizava trabalhos semelhantes. A proposta de Nedelcovic apresentada a Walters é uma combinação bizarra de sentimentos de autossuficiência — ao estilo da SOL — e ação paramilitar:

A conclusão básica a que cheguei há muito tempo — e com a qual, de certa forma, me conformei — é que, na ausência de qualquer transformação social de base, dramática e politicamente motivada, a única estrutura institucional na qual esse tipo de “mobilização para a sobrevivência” poderia ser tentado é a militar; e é essa, de fato, a ideia que defendo na proposta preliminar anexa.

Ele manifesta interesse em distribuir alimentos e ajuda a civis de países e comunidades carentes e acredita que as Forças Armadas são a organização mais capaz de realizar essa tarefa. Nedelcovic afirma que preferiria testar sua ideia em uma nação insular, mas está disposto a experimentá-la em qualquer lugar.

As razões para confiar um programa de subsistência social a uma organização militar ou paramilitar são várias e bastante elementares. O problema de alimentar os necessitados, sob a ótica do cenário anterior, é uma questão de “logística”, e não de “economia”.(...) Uma abordagem disciplinada da logística de sobrevivência coletiva — em vez de incentivos de mercado — adequa-se mais à mentalidade “militar” do que à “econômica”.

Talvez Nedelcovic esteja sendo idealista — ele próprio admite isso —, mas essa visão um tanto ingênua das Forças Armadas dos EUA parece bastante surpreendente. Leve-se em conta que Nedelcovic escrevia essa proposta a um oficial da CIA e que seu próprio suposto trabalho com a agência no Brasil estava longe de qualquer tipo de ajuda humanitária a civis, embora muitas vezes fosse realizado sob o pretexto de tal ajuda. Walters respondeu a Nedelcovic:

“A ‘exploração de arranjos sociopolíticos alternativos’ não está dentro de nossa esfera de responsabilidade, e há muito pouco que possamos fazer para ajudá-lo”. Walters recomendou que Nedelcovic direcionasse seus esforços ao Departamento de Estado ou à USAID, órgãos onde ele certamente trabalhou de alguma forma, seja como tradutor ou em operações mais sigilosas.

Foram dois anos após sua correspondência com Walters que Nedelcovic conversou com Rich Reynolds sobre várias operações psicológicas relacionadas a OVNIs, orquestradas pela CIA. Será que Nedelcovic foi motivado a falar com Reynolds sobre esses assuntos delicados devido à falta de resposta às suas propostas? Reynolds menciona que Nedelcovic parecia insatisfeito com seu trabalho e pode ter sido rebaixado de cargo. Seria ele algum tipo de agente de desinformação? Ele acreditava que a informação era verdadeira, quando na verdade não era? Nas próximas partes, vamos nos aprofundar ainda mais na trajetória de Nedelcovic para tentar chegar a alguma conclusão.


Certamente não o EPCOT, o grupo The Finders e especulações inquietantes

Enquanto Nedelcovic continuava a elaborar e enviar propostas a autoridades governamentais e militares, ele criava outros projetos na mesma linha da School of Living de Ralph Borsodi. Um perfil de Nedelcovic (cujo nome aparece grafado como Nedelkovic neste caso) foi publicado no The Washington Post em 1983, descrevendo-o como “o visionário amigável da vizinhança — uma versão ‘pé-rapado’ de Buckminster Fuller”. De fato, suas propostas utópicas persistiram ao longo da década de 1980, apesar de o próprio Nedelcovic admitir que seus “pedidos de financiamento a fundações sempre foram negados porque suas ideias frequentemente carecem de detalhes”. O artigo cita os nomes de outras tentativas de projetos e organizações idealizadas por ele, incluindo “Pot Luck Acres” — sucessora natural de seu “Happy Doomsday Retreat" (Retiro Feliz Dia do Juízo Final), que por sua vez nascera da “Basic Livelihood Inc.”. Esta última é a organização que Nedelcovic utiliza como endereço de remetente em sua correspondência com o Tenente-General Walters. Mais uma vez, Nedelcovic manifesta interesse em testar um novo sistema de organização social em uma nação insular. Esse projeto, batizado de EMSUS (Módulo Experimental de uma Sociedade Sustentável), consistia em uma experiência imersiva e vaga que “se concentrava no software da organização social”, proporcionando aos visitantes “breves períodos de serviço, como se estivessem entrando em uma colônia espacial”. O repórter Charles Fenyvesi observa que o projeto soa semelhante ao EPCOT (Experimental Prototype Community of Tomorrow — Protótipo Experimental da Comunidade do Amanhã) da Disney, mas Nedelcovic afirma que a versão da Disney está “sobrecarregada com o hardware de um espetáculo tecnológico”. Pode-se imaginar que o EMSUS seja um projeto semelhante às suas outras propostas: promover a autossustentabilidade e um estilo de vida rural, alinhado à preferência da School of Living pelo modelo de vida autossuficiente em pequenas propriedades. Nedelcovic descreve a proposta como algo que oferece um “padrão adequado de subsistência para todos, em uma base coletiva, deixando ainda amplo espaço para a iniciativa privada e a realização individual além disso”. Novamente, sua proposta é vaga, mas constitui uma estranha mistura de ideologias — seu obituário afirmaria mais tarde que ele “combinava elementos do socialismo e do capitalismo de livre mercado”. O artigo dizia:

Ele mantinha correspondência com vários primeiros-ministros do Caribe. Em certa ocasião, segundo ele, quase conseguiu a aprovação de seu projeto por um governador do Havaí. Mas ele afirma que ativistas políticos intervieram. “Eles se opunham à sabedoria importada do continente”, diz Nedelcovic. “Não queriam qualquer interface com a modernidade. Sentiam-se atraídos por conceitos associados a um renascimento neotribal”.

Nedelcovic já havia mencionado, em sua correspondência com o General Walters, o desejo de utilizar uma nação insular para testar sua proposta de mudança do sistema social. Mesmo na conversa com Rich Reynolds, o ufólogo menciona a “obsessão de Nedelcovic em criar um refúgio nas Bahamas para escapar da ‘corrida dos ratos’, como ele a chama”. Presumo que o artigo do The Washington Post se refira a um governador do Havaí, mas tudo isso levanta a questão: por que Nedelcovic tentava convencê-los a adotar um modelo de vida não testado? Ainda mais preocupante: por que ele fazia isso em territórios fora dos EUA? Se seus projetos carecem de detalhes — como o próprio Nedelcovic admitiu —, por que ele está tão ansioso para experimentá-los em qualquer nação insular disposta a ouvi-lo? Talvez ele realmente tenha apenas as melhores intenções, mas não se pode culpar ninguém por desconfiar delas, dada a sua participação — por ele mesmo relatada — naqueles casos de abdução por “alienígenas” na América do Sul.

A Ligação com The Finders

A ligação de Nedelcovic com a School of Living não se limitava às suas inúmeras propostas; ela se estende a algo ainda mais sombrio e nebuloso. O grupo The Finders é — assim como muitas outras facetas da vida de Nedelcovic — um tema para um estudo muito mais amplo, mas a história básica é importante para contextualizar suas atividades nos Estados Unidos.

O assunto é um ponto de grande controvérsia na disputa entre teóricos da conspiração e céticos. Os primeiros acreditam que o The Finders era uma seita satânica que abusava de crianças e mantinha conexões íntimas com a CIA, o que impedia que fossem processados; os últimos tendem a acreditar que o The Finders era um movimento incompreendido — uma mistura de beatnik e New Age — que preferia um estilo de vida mais primitivista. O escritor Joseph L. Flatley, um cético em relação ao The Finders, dedicou-se a esclarecer essa história.

Ele observa que o grupo, “segundo um memorando anônimo que circulava na comunidade de teóricos da conspiração na década de 1990, era uma operação de inteligência destinada a se infiltrar na contracultura americana”. É nesse memorando anônimo que o nome de Nedelcovic surge mais uma vez.

O memorando foi reproduzido em um boletim informativo da Steamshovel Press de 1998, que também trazia uma longa entrevista com Marion Pettie, o fundador do The Finders (conhecidos pelos membros efetivos como The Free State). Pettie, assim como Nedelcovic, parece ter fortes ligações com a CIA e as Forças Armadas. Flatley observa que Pettie, um sargento-mestre da Força Aérea, tinha uma esposa que trabalhava como secretária da CIA e um filho (George) que trabalhava na Air America, uma companhia aérea de contrabando de drogas pertencente à CIA no Vietnã. O memorando mencionado afirma: “No início da década de 1960, (Marion) Pettie permitiu que Ralph Borsodi e Mildred Loomis usassem sua propriedade na Virgínia para a School of Living, uma organização de fachada ‘descentralista’ e defensora de um governo mundial único. Por volta de 1964, Pettie recrutou Bosco Nedelcovic e o enviou para se infiltrar no Institute for Policy Studies [Instituto de Estudos Políticos].” Embora a segunda parte dessa afirmação (a infiltração de Nedelcovic no Institute for Policy Studies) não esteja confirmada no momento, já foi estabelecido anteriormente neste artigo que Nedelcovic estava envolvido com a School of Living de Borsodi e Loomis.

Além disso, a informação de que Marion Pettie estava associado à SOL é verdadeira. Uma edição da publicação The Green Revolution, da SOL, traz uma citação em destaque de Pettie em uma reportagem sobre a vida de Ralph Borsodi. Pettie é citado dizendo: “O Dr. Ralph Borsodi é um homem para cujas ideias ‘chegou a hora’.” Também está confirmado que a SOL utilizou a fazenda de Pettie em algum momento, conforme sugere o artigo da Steamshovel; outro artigo da The Green Revolution afirma: “Em 1964, Marion e Isabelle Pettie disseram: ‘Venham se reunir na Ragged Mt. Farm, aqui na Virgínia’, e nós fomos — para duas semanas de discussão, relaxamento, colheita de pêssegos, etc.” Um tal George Pettie é mencionado em algumas outras edições da The Green Revolution, mas não sei dizer se ele é filho de Marion Pettie ou alguém sem qualquer vínculo familiar. Mildred Loomis é mencionada no livro The Gamecaller, de Tobe Terrell, como uma pessoa a quem Marion Pettie instruía seus seguidores a participar de “pequenos jogos de aprendizado”. “Façam o que eles disserem e aceitem o que eles lhes derem”, afirma Terrell sobre o objetivo da interação com Loomis. “Envie um cartão-postal todos os dias e eu (Pettie) lhe direi quando voltar.”




Para ser breve, não entrarei nos detalhes minuciosos do sistema de crenças do The Finders ou nas “brincadeiras” de Pettie — quero apenas estabelecer uma conexão sólida entre a School of Living (SOL) e o The Finders. Dadas as sobreposições demonstradas pelas publicações da SOL e por The Gamecaller, acredito ser seguro afirmar que havia uma interconexão moderada entre os dois grupos; o interesse compartilhado por um estilo de vida contracultural torna essa relação ainda mais plausível. Embora Nedelcovic não seja mencionado em conexão com essa relação, pode-se especular que o memorando da Steamshovel Press não estava muito longe da realidade — afinal, Nedelcovic estava sediado na região da capital Washington, e o grupo The Finders atuava em seu próprio “quintal”.

Além disso, embora a associação de Marion Pettie e do The Finders com a CIA seja um assunto extremamente controverso, a própria ligação de Nedelcovic com a agência parece bastante clara, caso ele esteja dizendo a verdade sobre suas atividades na América do Sul.

De fato, sua correspondência com membros da comunidade de inteligência, como Alfred de Grazia e o General Vernon A. Walters, indica uma certa desenvoltura ao interagir com pessoas ligadas à CIA — sem mencionar as possíveis relações que Nedelcovic pode ter cultivado durante o tempo que passou no Colégio Interamericano de Defesa. As acusações de que o The Finders seria uma operação destinada a infiltrar a contracultura também seriam algo habitual para Nedelcovic, caso suas histórias sobre a encenação de abduções alienígenas na América do Sul fossem verdadeiras — e ainda mais se seu envolvimento em diversos projetos contraculturais tivesse sido orquestrado para fins escusos. Tanto a suposta causa do The Finders quanto as atividades de Nedelcovic poderiam ser operações cuidadosamente calculadas, deixando em aberto a possibilidade de espionagem, disseminação de confusão e aperfeiçoamento de técnicas de inteligência.




No entanto, há também a questão da “negação plausível”: Nedelcovic poderia estar mentindo sobre as operações da CIA relacionadas a OVNIs. As histórias mirabolantes poderiam ser mais uma forma de desinformação, lembrando o caso Paul Bennewitz, explorado na Parte 2. Da mesma forma, Nedelcovic pode não ter sido um participante ativo em operações de desestabilização contracultural, mas sim um idealista equivocado, ocupando um cargo que não se alinhava aos seus instintos ideológicos mais profundos. Em 1990, Nedelcovic aposentou-se de seu posto na Junta Interamericana de Defesa, embora, segundo seu obituário, tenha continuado a trabalhar no local como consultor. Ele faleceu em uma unidade de cuidados paliativos no norte da Virgínia, no dia de Natal de 1999, aos 66 anos. O obituário de Nedelcovic o descreve ainda como um visionário despretensioso, mencionando seus inúmeros projetos pessoais e as propostas enviadas a autoridades governamentais. Talvez Nedelcovic fosse um sonhador idealista em meio à indústria da máquina de morte colonial. Meu instinto me diz que outro trecho do The Washington Post descreve melhor o homem: “Ele apreciava seu papel de provocador”. Qual era a extensão e a natureza desse papel de provocador? Isso ainda precisa ser descoberto, mas certamente deixa o assunto aberto a interpretações.

Serão necessárias outras partes nesta série de artigos para esclarecer alguns detalhes dispersos da história de Nedelcovic e obter uma visão mais clara de quem ele realmente era.

Ele certamente parecia ter papéis diversos (funcionário da USAID, linguista, intérprete, defensor da contracultura, alguém que aparentava ser progressista político, etc.), o que torna ainda mais confusa a sua condição de denunciante de várias possíveis operações psicológicas envolvendo OVNIs. É difícil acreditar que começamos com um boletim informativo sobre OVNIs neste ponto da história! As pesquisas sobre Nedelcovic continuam, portanto, novos documentos podem surgir com o tempo, justificando uma atualização da narrativa. Tenho especial interesse em conversar com associados ou familiares de Bosco Nedelcovic — se você tiver alguma ligação com ele, adoraria entrar em contato. Quero compreender melhor o interesse dele por OVNIs, pois, no grande esquema das coisas, isso é apenas uma faceta de um homem extremamente complexo e singular, cujas motivações nem sempre consigo entender.

Clarence J. Gamble, artigos de opinião e uma leve dose de eugenia

No início da década de 1960, Bosco Nedelcovic manteve, ao que parece, contato quase regular com Clarence James Gamble, herdeiro da fortuna da Procter & Gamble e fundador da Pathfinder International e da Human Betterment League da Carolina do Norte. Ambas as organizações promoviam a contracepção, a saúde reprodutiva e a educação sexual, mas também estavam ligadas à eugenia. A Human Betterment League, por exemplo, supervisionou a esterilização de “mais de 7.600 pessoas, a maioria após 1945”, como meio de conter uma suposta epidemia de “débil-mentalidade” (ou deficiência intelectual). Embora eu ainda aguarde acesso aos documentos que constam no acervo de Gamble, presumo que Nedelcovic atuava como representante da Pathfinder International — organização que historicamente recebeu financiamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) — ou que dava continuidade ao seu trabalho na própria agência.

Ao contrário do que pode parecer com base nas partes anteriores desta série de artigos, pessoalmente não considero Nedelcovic um homem mau. No entanto, ele parece ter sido bastante equivocado, movido por intenções muitas vezes idealistas, ao transitar por diversos grupos e organizações que, de alguma forma, carregavam um histórico sombrio. Essa associação com Gamble não é exceção. Teria Nedelcovic sido também um eugenista? Uma carta enviada ao editor do The New York Times, em 1988, parece responder a essa pergunta:

Estou gostando das suas cartas sobre a perspectiva — ou a necessidade — de uma redução drástica da infestação humana, para salvar o que quer que reste do planeta.(...) Acredito que, longe de sugerirem algum plano atroz, racista e elitista para assassinar bilhões de pessoas enquanto preserva apenas alguns escolhidos, (os autores de textos sobre a necessidade de redução populacional) estão simplesmente nos forçando a encarar o horror da devastação global em curso — causada por esse aborto da evolução em que a humanidade se transformou — e a tirar nossas próprias conclusões: talvez escolhendo entre uma espécie de resignação filosófica e a aceitação do nosso destino coletivo, ou embarcando em alguma fantasia de salvação em pequena escala (como construir uma espécie de arca biológica), ou ainda indo até as últimas consequências com a correção biológica definitiva de reduzir essa biomassa parasitária a um tamanho minúsculo — e, portanto, sustentável — de maneira biodegradável.

Essa passagem é certamente alarmante; o uso de termos como “aborto da evolução”, “biomassa parasitária” e “infestação humana” parece, sem dúvida, o tipo de promoção do mito da superpopulação baseada no medo, à qual os eugenistas costumam recorrer. Embora não esteja otimista quanto a uma solução para a suposta crise de superpopulação, a vaga esperança de Nedelcovic não é menos assustadora: “Pessoalmente, não consideraria uma ‘praga sob medida’ adequada como nada além de um ato de Deus, no sentido mais profundo da expressão — especialmente se tal ato forçasse os sobreviventes, agora disciplinados, a buscar um modo de vida mais harmonioso, em humilde comunhão com seu habitat terrestre.” Vemos, mais uma vez, que Nedelcovic encara a expansão urbana e a industrialização como prejudiciais à Terra e à humanidade, em consonância com sua vinculação à School of Living. A associação com Gamble e com projetos financiados por ele na América do Sul — incluindo programas da USAID —, somada às opiniões contundentes de Nedelcovic sobre a superpopulação, levanta a hipótese inquietante de que ele talvez estivesse envolvido em iniciativas ligadas à eugenia. A Pathfinder International e a USAID, por exemplo, estiveram ligadas ao “despejo” de tratamentos contraceptivos como o Escudo Dalkon e Depo-Provera — não aprovados pela FDA — em comunidades da América do Sul e de outras nações do Terceiro Mundo. Novamente, Nedelcovic pode estar equivocado e suas intenções podem ser genuinamente boas; contudo, é inegavelmente intrigante — e preocupante — que essas conexões com programas de eugenia financiados pelo governo dos EUA coexistam com discursos bastante assustadores sobre o despovoamento.

Mais informações poderão surgir futuramente sobre os contatos de Nedelcovic com Gamble, e certamente publicarei atualizações se — ou quando — tais documentos chegarem às minhas mãos. Enquanto isso, a carta dele enviada ao editor do The New York Times me surpreendeu. Nedelcovic ocupava um cargo de destaque no Colégio Interamericano de Defesa, e sua atuação na USAID não era algo irrelevante; ainda assim, causou-me espanto constatar que ele não apenas foi objeto de um perfil bastante elogioso no The Washington Post, mas também teve uma carta publicada no The New York Times. Prepare-se: na verdade, encontrei cinco cartas de Nedelcovic publicadas na seção de cartas ao editor. As outras não levantam tantos sinais de alerta quanto a de 1988, sobre a superpopulação, mas, ainda assim, oferecem uma visão mais clara das perspectivas de Nedelcovic sobre determinados temas.

Em uma carta de 1990, ele critica um comentário do vice-presidente Dan Quayle sobre a soltura na natureza de filhotes de onça-pintada — animais que Quayle recebera de presente do governo paraguaio, mas que os zoológicos americanos haviam se recusado a acolher. Em outra carta, escrita um ano depois, Nedelcovic afirma que uma sociedade sem dinheiro em espécie jamais funcionaria: “Além do perigo constante de uma falha catastrófica em todo o sistema ou de sabotagem de qualquer mega-rede desse tipo, ou a infinidade de pequenos dilemas práticos,(...) há uma questão fundamental de organização social que deveria preceder qualquer solução hipertecnológica desse tipo.” Reconheço o mérito de Nedelcovic e concordo com ele nesse ponto.

Duas outras cartas ao editor abordam a exploração e a colonização do espaço. Em uma delas, datada de 1989, Nedelcovic afirma que “a ideia de uma nova fronteira ilimitada para a humanidade explorar e conquistar no espaço é totalmente falaciosa”, apontando a natureza inóspita do espaço, o isolamento em relação a qualquer assistência e outros perigos cumulativos. Ele escreve ainda: “Não há dúvida de que estamos saqueando e devastando o nosso ninho a uma velocidade vertiginosa; mas a ideia de escapar para o espaço, deixando para trás um planeta saqueado, é lamentavelmente irrealista.” Embora sem dúvida influenciada por suas graves preocupações com o nosso planeta em meio à percepção de superpopulação e desastre ambiental, uma carta anterior pode nos dar pistas sobre outras razões para tal visão das viagens espaciais. Ao comentar a explosão do Challenger, em janeiro de 1986, Nedelcovic compara o incidente ao Titanic:

O Titanic abalou as bases da complacência vertiginosa e da soberba tecnológica de outra era.(...) O Titanic foi, talvez, apenas uma expressão inocente de vaidade e autoconfiança ilimitadas. O Challenger, apesar de todos os seus propalados benefícios científicos e educacionais, também carregava uma carga muito mais sinistra e expôs a face crua das realizações humanas.(...) Isso me faz pensar na fábula de Esopo sobre o pequeno pardal que admira uma águia planando nas alturas, de onde ela pode contemplar a beleza da Terra lá embaixo. “Na verdade, amiguinho”, diz a águia, “eu plano a essa altura apenas para poder enxergar melhor minha presa no solo.”

Embora eu não compreenda totalmente a analogia final feita entre o Challenger e a fábula do pardal e da águia (sinta-se à vontade para me explicar a relevância nos comentários), acho a comparação de Nedelcovic entre o Challenger e o Titanic bastante convincente, especialmente dada a sua percepção de que ambos representavam o domínio da humanidade sobre a natureza, apenas para resultar em desastres horríveis. Talvez relacionado à sua insistência na vida rural como estilo de vida, Nedelcovic parece desconfiado do desenvolvimento tecnológico como meio de conquistar o meio ambiente.

O desastre do Challenger pode não ter influenciado sua opinião sobre a colonização espacial, no entanto, já que uma carta posterior afirmaria que “o único propósito legítimo e edificante da exploração espacial é o conhecimento em si”, sugerindo que expedições científicas ainda são aceitáveis em sua visão.

Um ponto possivelmente importante sobre essas duas últimas cartas: esses escritos são o momento em que Nedelcovic mais se aproxima da questão dos OVNIs, fora de sua conversa com Rich Reynolds. É isso mesmo: às vezes até eu me esqueço de que toda essa história começou com uma suposta falsa abdução alienígena na América do Sul, orquestrada pela CIA. A exploração e a colonização espaciais são, reconhecidamente, coisas bem diferentes da ufologia, mas há, sem dúvida, uma sobreposição entre aqueles que se interessam por OVNIs e aqueles que desejam explorar o cosmos. Entrando em terreno especulativo, a relutância de Nedelcovic em relação a viagens espaciais poderia condizer com sua condição de homem que sabia que mistérios ufológicos são, muitas vezes, operações orquestradas pela CIA. Não se trata de mistérios — a humanidade jamais teve interações com extraterrestres. Mas, novamente, trabalhamos com poucos registros, e o material disponível não menciona qualquer interesse em OVNIs, exceto pela conversa que ele teve com Reynolds.

A trajetória de Nedelcovic passou por abduções alienígenas orquestradas no Brasil, possíveis programas de eugenia em outras partes da América do Sul e um curioso projeto de contracultura nos EUA, desenvolvido enquanto ele trabalhava no Colégio Interamericano de Defesa. Já na casa dos 50 anos, Nedelcovic escreveu inúmeras cartas ao editor do The New York Times — que foram publicadas — e chegou a ser tema de uma matéria elogiosa no The Washington Post sobre seus projetos de reintegração social. Pelo caminho, cruzamos com o grupo The Finders, um herdeiro da Procter & Gamble e vários agentes da inteligência americana. Não sei quanto a você, mas eu estou ficando tonto. Nedelcovic talvez tenha sido o homem mais interessante do mundo sobre quem se escreveu tão pouco.

Uma conversa com Rich Reynolds e outros detalhes variados

Entrei em contato com Rich Reynolds, o ufólogo responsável por tornar o nome Bosco Nedelcovic conhecido no meio ufológico. Sua resposta trouxe imediatamente informações que eu desconhecia até então: a de que ele manteve contato prolongado com Nedelcovic:

Bosco entrou em contato comigo depois que algumas matérias de jornal afirmaram que eu era rico e tinha interesse em OVNIs, entre outras coisas. Seus primeiros contatos — e os principais — giravam em torno de seu projeto de “Subsistência Básica” (Basic Livelihood). Acho que ele estava sondando se eu poderia fornecer recursos financeiros; embora nunca tenha pedido diretamente, ele queria que eu me juntasse a ele em seu empreendimento. Conversávamos sempre por voz, mas a comunicação ocorria praticamente toda por correio.(...) De 1978, mais ou menos, até 1987, não mantive muito contato com Bosco, mas ele me enviava cartões-postais dos locais onde participava de conferências ou eventos.




Os leitores assíduos notarão que a Basic Livelihood Corporation foi a entidade que Nedelcovic utilizou ao enviar uma proposta ao vice-diretor da CIA, Vernon A. Walters (assunto abordado na Parte 3). Vale ressaltar também que, anteriormente, eu havia mencionado a existência de um intermediário nas conversas entre eles — conforme relatado no documento original sobre o caso de abdução de Villas-Boas e o Caso Scoriton —, mas Reynolds me garantiu que não houve intermediário, pois os dois se conheciam: “Na época, eu achava que ele era apenas um funcionário da AID me contando algo que sabia ou havia descoberto”. Ele também teve a gentileza de me enviar uma cópia de um dos cartões-postais que Nedelcovic lhe enviou ao longo dos anos, e encontrei a imagem da frente em uma das postagens de seu blog. O cartão retrata a Biblioteca Central da Universidade da Califórnia em San Diego — um edifício de arquitetura bastante futurista —, e Bosco brinca dizendo que o local parece um “complexo” adequado; essas propostas pareciam estar sempre presentes em sua mente — um “projeto de habitação coletiva estilo hippie”, como Reynolds descreveu certa vez.

Aparentemente, o contato de Nedelcovic com Reynolds raramente tratava de OVNIs. Em vez disso, “sua correspondência(...) era geralmente voltada para suas atividades nos EUA e seu trabalho na área de Defesa”. Mais uma vez, parece que ele tinha pouco interesse em OVNIs — talvez tenha até entrado em contato com Reynolds em sua busca por seu “rei filósofo”, em vez de por interesse no assunto em si. Quando Reynolds mudou de endereço, os cartões-postais pararam de chegar, mas aquela não foi a última vez que ele ouviu falar de Nedelcovic:

Quando deixei a cidade pequena onde morava, nunca mais tive notícias de Bosco, mas um dia me deparei com alguns comentários em um site de ufologia chamado UFO Updates.[Pesquisas posteriores revelaram que isso ocorreu em 2004.] Os comentários relatavam a prisão de Bosco por conduta imprópria envolvendo crianças(de natureza sexual, creio eu). E mencionavam que ele era membro da CIA — algo que ele nunca me contou.

Quero enfatizar que essas alegações trazidas por Reynolds são apenas isso: alegações; não tenho a intenção de difamar o homem. Estou pesquisando o arquivo do UFO Updates em busca de referências a esse assunto e enviando e-mails a membros da lista de discussão que possam se lembrar do tópico ter sido abordado, mas, até agora, encontrei apenas menções vagas à investigação. O próprio Reynolds reflete:

Ao analisar todas as correspondências de Bosco ao longo de tantos anos, tenho a sensação de que ele não buscava apenas ajuda financeira ou um parceiro para sua ideia de “complexo habitacional” ou para seu projeto de “subsistência básica”. Acho que ele buscava uma saída — uma forma de escapar de seu emprego no Departamento de Defesa(DOD) e da CIA. Mais importante ainda, talvez, imagino que o DOD e a CIA não estivessem satisfeitos com sua suposta divulgação das maquinações deles em relação aos OVNIs — fossem elas reais ou não.

É necessária uma investigação mais aprofundada sobre essas novas alegações envolvendo Nedelcovic, mas o fato de terem surgido sem quase nenhum precedente anterior é, de certa forma, chocante. De modo geral, Reynolds tinha uma impressão positiva de Nedelcovic: “Achava Bosco encantador e simpático. Ele me contou sobre as dificuldades que enfrentou na Iugoslávia e(...) mostrava-se entusiasmado com seus projetos de vida de orientação marxista”. Será que esse sujeito amigável e de aparência simples estava realmente envolvido com a CIA? Quais de suas conexões, exploradas anteriormente nesta série, estavam ligadas a esse envolvimento com a agência? E a pergunta que realmente impulsiona toda essa história: as histórias sobre Villas-Boas e Scoriton eram verdadeiras? Reynolds expressou-se da seguinte forma: “Recebi alguns pedidos de mais informações, mas sempre encaminho os interessados aos meus blogs, onde podem encontrar minha avaliação inicial da história de Bosco e minha relutância em aceitá-la como autêntica. Depois de ler que Bosco era da CIA, reavaliei seu relato e agora o considero plausível.”

Algumas descobertas recentes de última hora: nos documentos de David T. Bazelon — ex-advogado corporativo e professor de inglês e ciências políticas na SUNYB — há um arquivo associado a Bosco Nedelcovic na seção dedicada a “Reimpressões e Recortes de e sobre Amigos e Associados”. Assim como ocorre com os documentos de Clarence J. Gamble, não tenho acesso aos de Bazelon, mas há um detalhe interessante a ser extraído da trajetória de Bazelon: ele estava associado ao Institute for Policy Studies na década de 1960 como pesquisador visitante. Embora tênue, a tentativa de Nedelcovic de manter correspondência com ele serve como confirmação parcial do memorando do grupo The Finders, da Steamshovel Press — analisado na Parte 4 —, no qual Nedelcovic é recrutado pela líder do grupo, Marion Pettie, para “se infiltrar” no Institute for Policy Studies. Embora isso não valide, de forma alguma, as alegações sobre a participação de Nedelcovic em operações de inteligência, constitui, no mínimo, uma prova de que as conexões necessárias para tais operações provavelmente existiam.

Entre outras figuras públicas cujos arquivos contêm referências a correspondências de Nedelcovic, estão o renomado arquiteto de sinagogas Percival Goodman e o cofundador da Hewlett-Packard, William Hewlett. No entanto, o caso deste último parece tratar-se daquela carta de recusa bastante comum em resposta aos projetos de Nedelcovic, com a seguinte observação: “impossibilitado de prestar assistência ao projeto ‘Módulo Experimental de uma Sociedade Sustentável’”. Ao que tudo indica, ele jamais encontrou seu “rei filósofo”.

Houve também confirmação de suas opiniões sobre a superpopulação — tema já abordado na Parte 5. Por algum motivo, ele publicava frequentemente em veículos de grande relevância; a parte anterior desta série mencionou várias cartas publicadas no The New York Times. Em 1989, Nedelcovic escreveu uma carta à revista Popular Science:

Se não obtivermos um controle populacional eficaz, todas as nossas soluções tecnológicas para o planeta — por mais criativas que sejam — fracassarão. Vocês dedicaram apenas alguns parágrafos a esse assunto na matéria final sobre o aquecimento global — talvez admitindo, ainda que implicitamente, que barreiras culturais e políticas tornam tal solução praticamente inalcançável. Fico sempre impressionado com aquelas visões de futuras sociedades “avançadas” que colonizam novos mundos, mas não compreendem a sabedoria mais básica de uma civilização verdadeiramente evoluída: a de que a única maneira de garantir uma perspectiva equilibrada de sobrevivência e felicidade a longo prazo é, antes de tudo, controlar o próprio contingente populacional.

Mais uma vez, não pretendo debater a questão da superpopulação, mas sei que Nedelcovic estava equivocado nesse ponto — algo que também se aplica a muitas facetas dos programas de eugenia americanos no Sul Global. Essa segunda carta ao editor sobre a superpopulação indica que o tema era uma preocupação constante para Nedelcovic, o que talvez explique seu envolvimento em programas da USAID e da Pathfinder na América do Sul. Um agradecimento especial a Rich Reynolds por conversar comigo e buscar documentos relevantes.

Recapitulação, o Instituto de Estudos Políticos e propostas mais modestas

As partes anteriores desta série estabeleceram o histórico complexo e sempre surpreendente de Bosco Nedelcovic. Nascido em uma família iugoslava que imigrou para Assunção, no Paraguai, durante a Segunda Guerra Mundial, Nedelcovic alegava ter trabalhado para a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos — sob o disfarce da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) — quando tinha pouco mais de 20 anos. Ele afirmava ter participado de operações militares secretas dos EUA que envolviam o uso de drogas, sequestros e a realização de testes médicos em civis brasileiros que não sabiam o que estava acontecendo. Em conversas com o ufólogo Rich Reynolds em 1977, Nedelcovic descreveu essas operações e outras perpetradas por agências de inteligência americanas ao redor do mundo. Suas recordações colocavam em xeque a natureza paranormal de vários casos famosos de OVNIs e abduções alienígenas, incluindo a abdução de Villas-Boas, as experiências de Barney e Betty Hill e o incidente de Pascagoula.

Segundo Nedelcovic, todos esses eventos paranormais emblemáticos eram, na verdade, operações da CIA. Além disso, Nedelcovic descreveu a morte prematura de Ernest Arthur Bryant — o contatado envolvido no Caso Scoriton — decorrente de testes desumanos que utilizavam manipulação psicológica, drogas e armamento de micro-ondas; um cenário que lembrava o tormento infligido pelo AFOSI a Paul Bennewitz, embora décadas antes.

Continuando a trabalhar para a USAID e outras organizações americanas ao longo da década de 1960, Nedelcovic manteve contato contínuo com Clarence James Gamble, herdeiro da fortuna da Procter & Gamble e fundador da Human Betterment League e da Pathfinder International. Ambas as organizações promoviam políticas eugenistas que buscavam esterilizar e desencorajar a reprodução de populações pobres e com deficiência mental, tanto nos EUA quanto no exterior. Nedelcovic realizou trabalhos de promoção para a International Planned Parenthood Federation, atuando como um embaixador frequente da guerra de Gamble contra a ameaça (exagerada) da superpopulação na Argentina. Ele fez uma transição tranquila para a vida nos Estados Unidos em 1964, continuando a trabalhar como tradutor para — pelo menos segundo o próprio Nedelcovic — o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Foi durante esse período de transição que Nedelcovic começou a escrever cartas a qualquer pessoa que ele considerasse uma possível candidata a “filósofo-capitalista” — alguém capaz de financiar seu idealismo utópico —, talvez encorajado pelo apoio moral e financeiro de Gamble na Argentina. Entre a multidão de destinatários das cartas de Bosco estavam o especialista militar americano em operações psicológicas (psyops) e catastrofista Alfred de Grazia, o vice-diretor da CIA Vernon A. Walters, o sociólogo Irving Louis Horowitz, o fundador da HP William Hewlett e um outro convidado muito especial que espero apresentar em uma publicação futura — aguardando a digitalização dos documentos.

Nedelcovic também foi associado ao grupo The Finders, de Marion Pettie, em um memorando que circulou nos meios da cultura conspiratória ao longo das décadas de 1980 e 1990. Nele, o autor anônimo afirma que Nedelcovic conheceu Pettie por meio de sua ligação com a School of Living. Uma publicação anterior confirmou que Pettie permitiu que membros da School of Living se hospedassem em sua propriedade na região da capital Washington, em 1964 — local onde Nedelcovic viveu periodicamente ao longo daquela década. O memorando anônimo afirma, então, que Pettie “recrutou (...) Nedelcovic e o incumbiu de se infiltrar no Institute for Policy Studies (Instituto de Estudos Políticos), um importante laboratório de ideias progressista da época. Embora eu já tivesse estabelecido anteriormente que Nedelcovic mantinha vínculos com um membro do IPS, eu não tinha certeza da extensão dessa relação. Foi ao ler o conteúdo das cartas de Bosco Nedelcovic para David T. Bazelon — um advogado corporativo que mais tarde se tornou escritor e professor de ciência política em várias universidades americanas — que comecei a perceber que Nedelcovic estava, no mínimo, tentando conquistar a simpatia do IPS. O livro de Bazelon de 1963, The Paper Economy, parece ter moldado as próprias convicções econômicas de Nedelcovic, defendendo uma estrutura socialista libertária e o afastamento do sistema monetário vigente como forma de melhorar a vida nos Estados Unidos. Em uma carta enviada a Bazelon em junho de 1966, Nedelcovic se dirige a todo o instituto, mencionando especificamente Bazelon e outras cinco pessoas. Ele agradece à organização “por todas as atenções e gentilezas” que lhe foram dispensadas nos dois anos anteriores, quando “chegou pela primeira vez a este país em busca de ‘insights’”. Isso indica que, mais ou menos na mesma época em que a School of Living passou um tempo na fazenda de Marion Pettie — um evento do qual Nedelcovic muito provavelmente participou —, ele já mantinha contato com o instituto. Sua intenção ao escrever para Bazelon e os demais naquele momento era convencê-los a apoiar seus planos para um programa destinado a “garantir a subsistência básica em uma economia de escassez”. Como de costume, ele enfatizou a implementação da iniciativa em países da América do Sul — especificamente no Paraguai, onde ele vinha trabalhando com a USAID — para levar a população local a participar de uma economia mais voltada para as necessidades reais. O plano que ele idealizou consistia em:

Um mecanismo social de trabalho coletivo em tempo parcial na agricultura, aplicável a algumas das áreas de colonização atualmente em desenvolvimento no Paraguai, que visasse melhorar o nível de subsistência local e, simultaneamente, proporcionar um estímulo cultural à população — sem submeter os participantes à regimentação de uma “comuna” agrícola.

A proposta é semelhante àquelas abordadas em textos anteriores, como a sua “Economia do Faça Você Mesmo”, sugerida em uma edição da revista Anarchy, ou as outras tentativas mencionadas em seu perfil no The Washington Post: a Basic Livelihood Corporation, o Experimental Module for a Sustainable Society e a Pot Luck Acres. Também guarda certa semelhança com as redes de vida comunitária autossuficiente de Marion Pettie ou com as atividades de vida em pequenas propriedades rurais da School of Living. Nedelcovic anexou alguns documentos com o intuito de explicar melhor suas ideias a Bazelon e ao Institute for Policy Studies; um deles já havia sido publicado na International Development Review. Sua tese defende que as economias dos países sul-americanos precisam abandonar a busca pelo pleno emprego e, em vez disso, concentrar-se nas necessidades e habilidades mais básicas dos indivíduos. Em uma mistura de ideias econômicas libertárias e socialistas, Nedelcovic busca implementar uma renda garantida para a população local, na esperança de que as atitudes sociais predominantes mudem. O objetivo final parece ser, assim como em outros escritos de Nedelcovic, uma forma de anarcoprimitivismo com algum apoio governamental — principalmente no que diz respeito a fornecer à população as habilidades e o conhecimento necessários para sua autossuficiência. Embora não acredite que o Institute for Policy Studies demonstrará muito interesse em suas ideias, ele encerra a carta dizendo: “Espero que se possa estabelecer uma ‘estrutura institucional’ adequada, por meio da qual um programa mais coerente possa ser formulado e, futuramente, implementado em caráter experimental no Paraguai.”

Já levantei anteriormente a hipótese de que Nedelcovic poderia ter tentado se infiltrar nos círculos de esquerda da década de 1960 — seu status como funcionário da USAID e possível colaborador da CIA desperta essa suspeita —, e o envio constante de cartas, somado a propostas vagas e utópicas, certamente se encaixaria no perfil de alguém que busca ganhar credibilidade nesses grupos. Além disso, o fato de sua associação com o Institute for Policy Studies ter durado vários anos confere maior credibilidade à ideia de que o memorando do The Finders estava correto — ele estava tentando se infiltrar no instituto em nome do grupo de Marion Pettie, que tinha vínculos com a CIA. No entanto, sempre me lembro do que Rich Reynolds, o ufólogo que manteve correspondência com Bosco por vários anos, sugeriu sobre o assunto: Nedelcovic estava sendo sincero em seus esforços para tornar o mundo um lugar melhor. “Acho que ele estava procurando uma saída do seu emprego no Departamento de Defesa e da CIA”, disse-me Reynolds. Nedelcovic teria sido um infiltrado ou um ex-funcionário da CIA tentando reparar erros do passado? Talvez seja impossível saber a resposta, mas essa continua sendo uma questão fundamental que esta série busca responder.

À medida que mais materiais e recursos sobre a vida de Bosco Nedelcovic chegam às minhas mãos, pretendo produzir novos episódios para esta série. Em particular, recebi recentemente cópias digitalizadas de quase 300 páginas de anotações e correspondências do período em que Nedelcovic trabalhou com Clarence James Gamble e com grupos de (eufemismo) planejamento familiar na Argentina dos anos 1960 — material que levará algum tempo para ser analisado detalhadamente. Já encontrei motivos de preocupação em uma leitura inicial, o que serve como uma prévia do que está por vir. Em uma carta datada de 17 de outubro de 1961, Gamble escreve a Nedelcovic: “Muito obrigado por me enviar o livro La Eugensia. É uma excelente exposição sobre a importância de pensar na próxima geração.” Assim como fez nos Estados Unidos com a Human Betterment League, Gamble levou suas visões eugenistas para o Sul Global, tendo Nedelcovic como um colaborador ativo. Examinaremos a extensão total disso no futuro.

Bosco Nedelcovic, o General e os Vampiros

Edward Geary Lansdale foi um Major-General da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, com atuação mais ativa entre 1943 e 1963. Anteriormente agente do OSI (Escritório de Investigações Especiais), Lansdale participou de importantes campanhas militares nas Filipinas e no Vietnã. Ele também foi um líder fundamental da Operação Mongoose, uma operação da CIA extremamente complexa que reuniu agentes, figuras da máfia e cubanos anticastristas em um esforço para “libertar” a ilha de Fidel Castro. Vários personagens da Operação Mongoose reapareceriam posteriormente no meio dos suspeitos do assassinato de JFK — e militares americanos linha-dura como Lansdale certamente tinham o motivo.

Imortalizado em The Ugly American (O Americano Feio), de Burdick e Lederer, Lansdale serviu de inspiração para o Coronel Hillandale, um conselheiro militar diplomático no Sudeste Asiático que parece possuir uma compreensão mais matizada da população local do que outros em sua posição. Assim como Hillandale, Lansdale utilizou a “contrainsurgência centrada na cultura”, uma abordagem que enfatizava “a necessidade de conhecimento cultural aprofundado ao conduzir operações militares e de contrainsurgência” na região.

Essa abordagem “centrada na cultura” também foi utilizada em operações psicológicas lideradas pelo General Lansdale: em campanhas nas Filipinas, Lansdale instruiu suas tropas a recolherem os corpos de insurgentes mortos, drenarem seu sangue e perfurarem seus pescoços. Exibindo-os para que outros soldados inimigos os vissem, Lansdale pretendia tirar proveito do folclore local e da crença em aswangs (semelhante à concepção ocidental de vampiros) para dissuadi-los de lutar. Há semelhanças imediatas entre essa tática e outra operação psicológica, a Operação Alma Errante, “que buscava minar o moral vietnamita reproduzindo o que supostamente seria a voz de vietcongues mortos”. Ambas as operações instrumentalizaram o folclore sobrenatural local, superstições e crenças culturais. Outras supostas operações psicológicas da época, embora em diferentes partes do mundo, também se valeram da crença no paranormal — ou pelo menos criaram, inadvertidamente, narrativas paranormais que perdurariam. Para os leitores deste blog, os falsos ataques de vampiros de Lansdale podem imediatamente evocar as falsas operações de abdução alienígena alegadas por Bosco Nedelcovic em artigos anteriores desta série. Assim como as falsas vítimas de aswangs, o sequestro de Antônio Villas-Boas por agentes da CIA instilou a crença no fantástico, dando a impressão de uma força sobrenatural inescapável que não podia estar relacionada a um exército convencional.

Essas semelhanças tornam-se ainda mais relevantes porque Nedelcovic realmente escreveu para Lansdale em 1975 — mais um destinatário de uma de suas muitas propostas idealistas para comunidades de refugiados e do terceiro mundo. A carta foi enviada por meio de um “amigo em comum”, que será explorado mais a fundo em artigos futuros. Em linhas gerais, esse amigo era uma figura igualmente idealista, envolvida em assuntos internacionais, educação e economia. Este associado encaminhou a Lansdale uma carta de Nedelcovic, bem como uma coleção de materiais de propostas e recortes de jornais, aparentemente pressentindo que o General se interessaria pelas ideias de Nedelcovic. Embora os “ataques de vampiros” e as “abduções alienígenas” perpetradas por militares não sejam mencionados, existem outros paralelos notáveis entre os interesses da dupla no exterior. Assim como as próprias propostas de Nedelcovic, algumas das operações de Lansdale e seus colegas no Sudeste Asiático e em outros lugares (como em outras estratégias da ARPA no Vietnã) utilizaram poder brando e influência — frequentemente sob o disfarce de ajuda. De Surveillance Valley, de Yasha Levine:

O truque seria desencorajar os vietnamitas da insurgência por meio de uma combinação de marketing, incentivos ao consumidor e um pouco de firmeza quando nada mais funcionasse. Distribuição de dinheiro, empregos, pequenas melhorias na infraestrutura, esquemas de privatização de terras, propaganda anticomunista, destruição de plantações, mutilações, assassinatos — todas essas eram variáveis legítimas a serem incluídas na equação da coerção.

Assim como Nedelcovic buscou combinar “elementos do socialismo e do capitalismo de livre mercado” em suas propostas utópicas que visavam usar as forças armadas para sua implementação, a situação no Vietnã apresentava semelhanças. “Uma estranha pseudociência emergiu”, escreve Levine. “Combinando economia de livre mercado e teoria da escolha racional, os planejadores militares e cientistas viam os vietnamitas como autômatos, nada mais do que indivíduos racionais que agiam puramente em seu próprio interesse.” O objetivo tanto das propostas de Nedelcovic quanto das ações militares anteriores no Sudeste Asiático parece ser o exercício de influência por meio de uma suposta ajuda diplomática (distribuída pelos militares dos EUA) e uma eventual dependência do Ocidente.

Mais especificamente, Nedelcovic expressa que acredita que ele e Lansdale podem “compartilhar um ceticismo básico quanto à capacidade da economia de mercado de fornecer empregos para todos em um futuro próximo”. Como em suas inúmeras outras propostas, ele insta Lansdale a considerar suas ideias de proporcionar “um sustento aceitável aos desempregados e marginalizados” por meio de “trabalho não monetizado”, implementado através de um sistema experimental. Nedelcovic sugere usar os “grupos populacionais mais problemáticos”, como os “veteranos do Vietnã que retornam e (...) os refugiados do Vietnã”, como as populações nas quais seus ideais utópicos poderiam ser testados. Ele se oferece para se encontrar com Lansdale para continuar a conversa — ambos estavam na região da capital Washington, na época —, mas não sei se esse encontro chegou a acontecer ou se Lansdale sequer respondeu à carta de Nedelcovic. Contudo, o fato de tal correspondência existir (mesmo que possivelmente unilateral) ilustra ainda mais a interação contínua de Nedelcovic com indivíduos ligados à CIA — como visto em trocas anteriores com o vice-diretor da CIA, Vernon A. Walters, bem como com Alfred de Grazia, autor de manuais de operações psicológicas da CIA — em suas tentativas de obter apoio para seus experimentos econômicos singulares.

Além das alarmantes semelhanças entre as operações psicológicas realizadas por Lansdale no Vietnã e as alegadas por Nedelcovic no Brasil, é imediatamente suspeito que as propostas humanitárias de Nedelcovic sejam uma reminiscência das táticas de coerção mais “benevolentes” usadas pelas tropas americanas no Sudeste Asiático — guiadas pelo General Lansdale e outros como ele. Pode ser que Nedelcovic não tenha conseguido imaginar soluções além daquelas que organizações como a USAID são capazes de implementar. No entanto, é sempre possível que suas propostas fossem uma continuação de seu emprego no Departamento de Estado ou de aspirações mais elevadas na área das relações internacionais.

Nedelcovic certamente estava desenvolvendo uma rede considerável de pessoas com poder e influência, numa tentativa de concretizar suas ideias utópicas. Embora seu trabalho com Clarence Gamble na América do Sul para combater a “superpopulação” seja o principal exemplo de sua disposição em solicitar dinheiro e apoio de indivíduos ou dos Estados Unidos, pode não ser o único caso em que Nedelcovic conseguiu apoio para suas ideias peculiares. À medida que esta série continua, sua rede de indivíduos díspares nas áreas militar, empresarial, governamental e acadêmica será examinada mais a fundo.

Antes de encerrar esta parte, vale ressaltar que o incidente de Villas-Boas foi um fator incitante no desenvolvimento dos cenários de abdução alienígena. Se foi uma operação como a dos vampiros filipinos de Lansdale, não utilizou um folclore preexistente como Lansdale fez. Isso torna as motivações de tal operação menos claras, embora o documento original das conversas de Rich Reynolds com Nedelcovic declare o propósito como sendo o de experimentar “novas formas de testes psicológicos que eventualmente seriam usadas em contextos militares”. Embora os detalhes não sejam aprofundados, a experiência extravagante, traumática e onírica de Villas-Boas dá a impressão de tortura, interrogatório ou uso de drogas. Mark Pilkington observa semelhanças com os testes MKULTRA com substâncias psicoativas realizados em participantes sem o seu conhecimento. O usuário do X “JimmyFalunGong” e eu conversamos sobre a operação que Nedelcovic alega ter similaridades com os experimentos do agente da CIA Dan Mitrione, “um especialista em ‘policiamento’ da USAID que trabalhou com a CIA para ensinar aos anticomunistas sul-americanos as artes do interrogatório e da tortura”. Assim, embora o incidente tenha sido eventualmente atribuído a forças paranormais — e a comunidade de inteligência dos Estados Unidos sem dúvida tenha considerado essa narrativa útil —, o incidente de Villas-Boas, como descrito por Nedelcovic, na verdade deu origem a um novo folclore, em contraste com a operação de vampiros de Lansdale, que utilizava as crenças já estabelecidas dos oponentes das forças armadas americanas. Embora haja, sem dúvida, estranhos paralelos na interação entre Nedelcovic e Lansdale, as operações são mais complexas do que uma comparação direta. À medida que continuamos a explorar e desvendar as interseções entre a parapolítica e o paranormal, essas distinções precisam ser feitas.

No entanto, não podemos deixar Ed Lansdale completamente de lado. Em meio aos primeiros indícios de experiências de abdução alienígena no início da década de 1960, o General Lansdale retornaria com uma proposta para outra operação psicológica bizarra que pretendia utilizar o sobrenatural, o folclore e a crença no paranormal. Embora aparentemente nunca tenha se concretizado, Lansdale queria que as campanhas de “contrainsurgência centradas na cultura” dos EUA chegassem do Sudeste Asiático a Cuba.

Uma conversa com Mickey e Ines Nedelcovic

Minha série de artigos “Bosco Nedelcovic no Brasil” surgiu de declarações feitas por Bosco Nedelcovic ao ufólogo Rich Reynolds em 1978, nas quais ele alegava que a CIA era responsável por inúmeros avistamentos de OVNIs e abduções de grande repercussão. O principal deles foi o incidente Villas-Boas — no qual Nedelcovic desempenhou um papel secundário —, mas ele também envolveu a CIA em muitos outros eventos ufológicos, como o caso Scoriton e a abdução do casal Hill. Vivendo na América do Sul na época da abdução de Villas-Boas, Nedelcovic não é a única fonte a apontar uma suposta atuação da CIA em casos de OVNIs a partir da década de 1950. Jacques Vallée escreveu sobre a afirmação do Capitão da Marinha Argentina Omar Pagani de que “muitos casos divulgados na América Latina eram fraudes bem arquitetadas, e que a CIA estava definitivamente envolvida, fazendo seus jogos habituais”. Além disso, ele enfatizou que a Agência “mantém um olhar atento sobre tudo o que é feito a esse respeito na Argentina”. Embora não corrobore totalmente as alegações de Nedelcovic, a ideia de incidentes ufológicos fabricados na América do Sul já circulava no meio ufológico antes mesmo de ele falar com Reynolds. Se ele estivesse dizendo a verdade, isso ofereceria uma explicação notavelmente mais fundamentada (e, portanto, mais provável) do que outras hipóteses apresentadas.

No entanto, é importante considerar a pergunta que impulsionou minha pesquisa sobre Bosco Nedelcovic, dada a natureza surpreendente de suas alegações: quem era esse homem que afirmava ter testemunhado a CIA abduzir Antônio Villas-Boas como parte de testes de supostas operações psicológicas? Ele era uma figura complexa, excêntrica e, sob todos os aspectos, interessante. Atuando principalmente como tradutor e linguista no Colégio Interamericano de Defesa (IADC), Nedelcovic nasceu e cresceu inicialmente em Belgrado, na Sérvia, mas passou a adolescência em Assunção, no Paraguai, depois que seus pais tiveram de fugir da Iugoslávia. Na América do Sul, ele trabalhou tanto para a USAID quanto para o Pathfinder Fund, de Clarence Gamble, antes de se mudar para os EUA para trabalhar no IADC.

Esta série registrou seus constantes contatos com diversas pessoas para promover suas ideias peculiares de mudança social — ideias que receberam vários nomes ao longo do tempo, mas que eram divulgadas principalmente por meio de sua organização, a Basic Livelihood Corporation. Cartas endereçadas a Alfred de Grazia, William Hewlett, Irving Louis Horowitz, Vernon Walters, Percival Goodman, Ed Lansdale e outros podem ser encontradas em acervos de arquivos por todo o país. Embora suas propostas nunca tenham se concretizado plenamente, Nedelcovic surge em diversos contextos da contracultura na segunda metade do século XX — incluindo a organização de Marion Pettie, The Free State, conhecida informalmente como The Finders. Esta investigação buscou analisar a possibilidade de ele ter atuado como colaborador da CIA e o que isso significava para as várias organizações e atividades das quais participou. Embora tal análise tenha exigido uma dose considerável de especulação, tive a oportunidade de esclarecer pelo menos parte dos fatos em conversas com pessoas muito próximas a Nedelcovic.

Mickey, esposa de Bosco, e Ines, sua filha, gentilmente conversaram comigo sobre o homem — marido e pai — que está no centro desta história. Elas demonstraram um carinho genuíno por Bosco, descrevendo-o como uma pessoa “gentil e generosa”, capaz de fazer amizade com qualquer um, independentemente da classe social. Ambas se recordam dele como um homem apaixonado, que lutava para implementar suas propostas de modos de vida diferentes e mais ecológicos. “Ele foi a primeira pessoa que conheci na vida a refletir sobre a maneira como vivemos hoje”, disse Mickey, destacando a consciência que ele tinha sobre poluição, mudanças climáticas e superpopulação — questões que impulsionavam seus pensamentos. “Esse é o lado do meu pai que eu mais conheço”, relembrou Ines. “Antes de ele falecer, eu já ouvia falar sobre aquecimento global por meio dele. Isso mostra que ele estava muito à frente de seu tempo nesse aspecto. Ele viajou para Belize e para as Bahamas com uma ideia de ecoturismo antes mesmo de o termo existir. Ele estava sempre pensando no meio ambiente e no clima.”

Embora esses projetos tenham sido documentados em artigos anteriores, Mickey e Ines relembraram o quanto eles eram importantes para ele, representando uma paixão que consumia todo o seu tempo livre. Em sua busca incessante por seu “rei filósofo”, Bosco acabou interagindo com uma grande variedade de pessoas, incluindo uma de quem eu não tinha conhecimento antes de conversar com Mickey e Ines: a escritora de ficção científica e ambientalista Margaret Atwood. Mickey relatou que, mesmo enquanto morria de câncer, Bosco queria dedicar o máximo de atenção possível aos seus projetos de mudança radical.

Ines recordou:

Outra característica marcante de Bosco era o quão(...) generoso ele era com dinheiro. Ele simplesmente tinha uma relação muito peculiar com o dinheiro. Ele se recusava a comprar uma casa; não queria entrar na(...) lógica do financiamento imobiliário — ele era muito obstinado quanto a isso. Ele costumava fazer uma brincadeira: ia ao posto de gasolina(...) e diziam: “Sr. Nedelcovic, vou lhe cobrar 400 dólares para consertar seu carro.” E ele dizia: “Ah, apenas 400 dólares? Tem certeza de que não deveria custar mais? 600?”

Fiel à sua trajetória na School of Living e a outros projetos que valorizavam a vida simples, ele dedicava muito tempo e energia à busca de alguém que executasse suas ideias, o que muitas vezes o deixava “frustrado e desmoralizado”. Ines disse que ele era “um homem cheio de ideias” e “um homem renascentista”, sempre envolvendo as pessoas em conversas sobre temas variados. Ele também era um tradutor talentoso, tão rápido e capaz de antecipar o que o orador diria que, muitas vezes, terminava as traduções simultâneas antes mesmo de o discurso acabar.

Mickey e Ines não sabiam do suposto envolvimento de Bosco nos casos de abdução na América do Sul até depois de sua morte, em 1999, quando o assunto foi levantado por jornalistas brasileiros que queriam conversar com elas. Foi também nessa época que souberam de sua suposta ligação com a CIA — algo sobre o qual nunca se falou com a família enquanto ele estava vivo. Embora obviamente não estivesse a par da suposta operação envolvendo OVNIs, Mickey lembrava-se de detalhes específicos do período em que a família viveu em Buenos Aires, entre o final da década de 1950 e o início da de 1960:

Ele (Nedelcovic) foi contatado por... não me lembro do nome dele. Lembro-me do rosto, mas não do nome. Acho que ele era de ascendência alemã; era um homem loiro, de olhos claros. Em uma das reuniões, fomos a um restaurante e eles conversavam; esse homem queria muito conversar, e lembro-me de ele dizer que havia um OVNI indo para as montanhas dos Andes, como se houvesse uma base lá em cima. Eles discutiram muitas coisas, embora Bosco não acreditasse em OVNIs.

Seria interessante saber quem era esse indivíduo, especialmente dadas as afirmações posteriores de Nedelcovic e a época em que esse homem loiro o contatou, mas sua identidade permanece desconhecida por enquanto. “Ele era muito cético”, dizia Mickey sobre a opinião de Bosco a respeito de OVNIs. Ela explicou que não prestava muita atenção ao assunto ou às conversas na época, pois isso não lhe parecia importante:

Eu sabia sobre OVNIs porque havia um histórico disso em Buenos Aires, com longas discussões e reuniões. Não sei o que mais estava envolvido; não me lembro. Mas havia uma pessoa (nota: presumivelmente o homem loiro) que mantinha contato constante com ele, embora houvesse outras pessoas também. (Mas) eu era muito jovem e tinha dois filhos pequenos.

Nesse contexto, Mickey recordou que, apesar de não acreditar em OVNIs, Bosco demonstrava certo interesse pelo assunto, chegando a assistir a programas de televisão sobre o tema. No entanto, esse interesse não parecia tão profundo quanto se poderia imaginar a partir do que ele relatava a Rich Reynolds. Nessas conversas, ele discorria tanto sobre casos famosos quanto sobre episódios pouco conhecidos de OVNIs, com um nível de detalhamento que sugeria um vasto conhecimento sobre o assunto ou que ele havia, de fato, testemunhado as operações e os briefings que alegava ter presenciado. Ao longo de todas as conversas que tiveram durante a vida, Ines sentia que “o que menos se destacava” eram justamente aquelas “sobre OVNIs”.

Embora não exista documentação oficial confirmando que Nedelcovic atuava como colaborador da CIA — e o assunto, obviamente, não era discutido em família —, Mickey e Ines guardam lembranças que sugerem uma possível atividade sigilosa nos bastidores. Mickey contou:

Descobrimos sobre as conexões dele, e a única coisa que sei — já que ele prestava serviços para a Escola de Guerra (War College) — é que ele ia constantemente ao Departamento de Defesa e fazia muitas viagens com a instituição; às vezes, essas viagens duravam seis semanas. O Departamento de Estado me ligava e dizia: “Seu marido quer saber como você está. Como estão as crianças?”. E eu respondia — lembrando que, naquela época, não tínhamos celulares —: “Bom, se ele quer saber, diga para ele me ligar”. E eles diziam: “Sinto muito, mas não há como estabelecer conexão onde ele está”. (...) Tudo isso me veio à mente: o fato de que ele estava realizando alguma pesquisa ligada ao Pentágono e à CIA, talvez. É algo em que simplesmente acredito porque era muito curioso o fato de ele ficar praticamente incomunicável.

Ouvir esse relato me lembrou imediatamente de outras histórias sobre pessoas com amigos e familiares ligados à comunidade de inteligência — longas ausências sem explicações imediatas. Um exemplo mais conhecido dessas atividades secretas de bastidores seria o de Reeve Whitson, conforme descrito no livro CHAOS, de Tom O’Neill. Suposto agente de inteligência com “hábitos excêntricos e memória eidética”, Whitson infiltrou-se em diferentes comunidades da contracultura na Los Angeles dos anos 1960 a mando de alguma agência e parecia “viver (...) umas oito vidas simultaneamente”. O’Neill escreve: “Ele era enviado a regiões remotas do mundo por meses a fio, retornando sem dar explicações sobre onde estivera ou o que estivera fazendo”. Embora não estivesse tão profundamente envolvido quanto uma figura como Whitson, Nedelcovic certamente possuía a inteligência e as habilidades linguísticas adequadas para um potencial colaborador. Mickey tinha certeza de que Bosco “estava envolvido em algo mais” do que apenas suas funções de tradutor/linguista e que “estava profundamente inserido” no aparato de defesa dos EUA.

Na mesma linha, confirmou-se a suposta conexão com Marion Pettie e o grupo The Finders. Como eu havia deduzido na Parte 4, os Nedelcovic passaram um tempo com Pettie em sua fazenda em Old Rag Mountain, enquanto Bosco estava envolvido com Mildred Loomis e a School of Living, de Ralph Borsodi. A família chegou a alugar de Pettie uma de suas primeiras propriedades nos Estados Unidos. Mickey, que também tinha fama de estar ligado a serviços de inteligência, lembrava-se de Pettie como “um sujeito estranho” que havia servido como motorista do presidente Truman, embora Mickey sentisse que “ele estava um pouco mais envolvido do que apenas essa função”. Pettie possuía uma vasta rede de contatos própria, por meio do The Finders e de outros grupos de contracultura, o que o tornava imensamente útil como um possível colaborador. “Ele era como uma rede, conectando organizações e coisas do gênero”, observou Mickey. O próprio Bosco acabou rompendo relações com Pettie devido a um incidente não revelado que, no entanto, parece arrepiante. Como Mickey recordou:

Um dia, Bosco simplesmente cortou relações por completo. “Esse homem é muito perigoso”, ele me disse. E lembro-me de um pequeno confronto, pois ele disse que tínhamos de sair dali — estávamos alugando a casa de Pettie em Arlington. Ele disse: “Temos de sair em uma semana”. Nós saímos. (...) Não sei o que realmente aconteceu lá. Ele nunca falou sobre isso comigo.

Pettie tentou manter contato com Bosco por meio de outras pessoas, mas eles nunca mais se falaram. O que esses eventos indicam é que Nedelcovic provavelmente fazia parte da rede de Pettie, mas talvez tenha passado a sentir que estava sendo usado. Conforme mencionado no memorando do The Finders, Pettie teria “escalado (Nedelcovic) para se infiltrar no Institute for Policy Studies”. Esse rompimento pode indicar que Bosco não tinha consciência dessa operação de inteligência, mas também é possível que o desentendimento não tivesse relação com isso. O fato de deixarem essa rede deixou Pettie furioso — Mickey disse que ele parecia pronto para agarrar Bosco pela garganta —, o que sem dúvida deu a Bosco motivos razoáveis para temer pela segurança de sua esposa e filhos. Embora o papel exato de Nedelcovic na rede permaneça desconhecido, isso deixa em aberto a possibilidade de que esse trabalho estivesse ligado a uma operação maior do Departamento de Defesa.

Independentemente dos indícios de atividades sigilosas nos bastidores, Mickey e Ines lembram-se de Bosco como um marido e pai amoroso, figura essencial em suas vidas até o seu falecimento, em 1999. Um intelectual que, segundo Mickey, “amava a humanidade”, ele parecia ser uma presença calorosa, curiosa e atenciosa no cotidiano da família. Em sua essência, ele parecia ser um ser humano único, difícil de rotular. “Não encontro pessoas como meu pai”, admitiu Ines, ressaltando a singularidade de seu caráter. Mickey me contou que ele possuía uma mente incrível, que só poderia ter vindo de outro planeta em um OVNI.

Visto que o tema dos OVNIs foi o ponto de partida de toda esta investigação, é apropriado que o próprio Bosco parecesse vir de outro mundo — ainda que, na narrativa de Villas-Boas, os “ETs” fossem, na verdade, a CIA.

Edição: Rodrigo Pontes

Fontes Adicionais:

  • Bosco Nedelcovic no Brasil - Parte 5 (https://tannerfboyle.substack.com/p/the-bosco-in-brazil-pt-5)
  • Bosco Nedelcovic no Brasil - Parte 6 (https://tannerfboyle.substack.com/p/the-bosco-in-brazil-pt-6)
  • The New York Times (Cartas ao Editor, 1988-1991)
  • Popular Science (1989)
  • Documentos de David T. Bazelon (SUNYB)
  • UFO Updates (2004)
  • Bosco Nedelcovic no Brasil - Parte 3 (https://tannerfboyle.substack.com/p/the-bosco-in-brazil-pt-3)
  • Bosco Nedelcovic no Brasil - Parte 4 (https://tannerfboyle.substack.com/p/the-bosco-in-brazil-pt-4)
  • The Washington Post (Obituário e Perfil de 1983)
  • The Record (Hackensack, NJ, 1964)
  • The Pittsburgh Press (1971)
  • Anarchy: A Journal of Anarchist Ideas (1963)
  • The Green Revolution (School of Living)
  • Steamshovel Press (1998)