Um dos relatos mais conhecidos do Caso Varginha ganha uma nova análise, levantando dúvidas sobre o que o casal realmente teria visto naquela madrugada.

O AVISTAMENTO DE
EURICO E ORALINA DE FREITAS

Pesquisa: Joab Castro · Fevereiro de 2026

O casal Oralina Augusta de Freitas e Eurico Rodrigues de Freitas surge como um testemunho principal do evento de avistamento de um suposto objeto em queda. Porém, a história tem elementos exagerados como foram analisados adiante.

No dia 23 de fevereiro de 1996, o ufólogo e pesquisador Ubirajara Rodrigues recebeu a informação de que um casal, morador da zona rural de Varginha, alegou ter visto um grande objeto cruzar o céu em uma noite. Esse casal era Eurico de Freitas e Oralina de Freitas. Eles moravam e trabalhavam em um sítio às margens da BR-491, que dá acesso à cidade de Varginha.

A seguir analisaremos o relato do avistamento do suposto objeto feito pelo casal. Os pontos serão separados por tópicos e analisados individualmente.

1 - DATA DA OBSERVAÇÃO

No livro Incidente em Varginha, escrito por Vitório Pacaccini e Fernanda Pires, é descrito que o casal teria visto um objeto se deslocando sobre o pasto no dia 20 de janeiro de 1996.



Trecho do livro Incidente em Varginha — 1ª ed.

No livro Varginha: Toda a Verdade Revelada, escrito por Marco Antonio Petit, ele faz um questionamento se referindo a esse fato:



Trecho do livro Varginha: Toda a Verdade Revelada

Na reportagem feita em 1996 pelo programa Fantástico, é exibida a primeira entrevista com o senhor Eurico de Freitas onde é dito:

“...No dia 17 de janeiro, o caseiro Eurico Rodrigues, viu um objeto voando por aqui…”




Em uma reportagem do programa Comando da Madrugada, de Goulart de Andrade e exibido na antiga Rede Manchete no dia 02/06/1996, é dito que o avistamento aconteceu no dia 19 de janeiro de 1996:

“Agora conta pra mim, o que aconteceu aqui no dia 19?
19 de janeiro né?
É
19 de janeiro, era 1 hora da manhã e o objeto veio de lá…”

Aqui é totalmente aceitável apenas como uma confusão devido a horários antes e depois da meia-noite, entre os dias 19 e 20 de janeiro, afinal a data não é contestada ou corroborada por nenhum dos outros presentes no momento da entrevista.

A primeira grande questão a se levar em conta é que desde o primeiro depoimento, o casal deixou evidente que não sabia ao certo a data em que o evento aconteceu.

Em todos os depoimentos, o casal deixa evidente que “a noite estava clara”. Uma noite clara no interior significa que existe Lua brilhando no céu.

Uma pesquisa muito bem feita pelo Natanael, do canal Fábrica de Noobs, aponta que tal avistamento não poderia ter ocorrido no dia 20 devido a um fato extremamente revelador. Não havia Lua no céu neste dia e no horário relatado.



Como bem analisado pelo canal Fábrica de Noobs, em uma área de zona rural, não existem fontes de luzes artificiais suficientes para refletir nas nuvens, como acontece nas cidades em perímetro urbano.

Assim, ele usa um calendário lunar e fica evidente que a Lua estava na fase nova no dia 20 de janeiro, vindo a nascer somente às 05:14 da manhã.

Segundo o livro Incidente em Varginha, do Pacaccini, o avistamento ocorreu por volta das 01:14 da manhã. Nessa data não havia Lua no céu, ela estava na fase nova e só viria a nascer às 05:14 da manhã.

Seguindo o mesmo caminho analisado pelo Natanael, do canal Fábrica de Noobs, e usando o site Time and Date, é possível confirmar as fases da Lua pela legenda e imagem a seguir, referentes ao mês de janeiro de 1996.

🌙 Consultar fases da Lua — janeiro de 1996




Levando esse fato em consideração e se baseando na parte do relato onde é dito que “a noite estava clara”, o avistamento só poderia ter ocorrido, no horário relatado, antes do dia 13 de janeiro, quando a Lua estava na fase minguante, ou depois do dia 28 de janeiro.

O fato é que a observação do suposto objeto carrega alguns pontos que merecem ser analisados.

Segundo os relatos do casal, o objeto apresentava as seguintes características:

Características descritas do objeto

  • Formato semelhante a um submarino ou charuto;
  • Voava baixo, cerca de 5 metros acima do pasto;
  • Deslocava-se com muita lentidão;
  • Assustou o gado no pasto, mesmo sem fazer barulho ou emitir luz;
  • Tinha tamanho aproximado de um micro-ônibus, entre 5 e 7 metros de comprimento;
  • Soltava fumaça branca;
  • Não fazia barulho;
  • Não possuía luzes;
  • Não possuía janelas;
  • Apresentava um tipo de “caroço” ou cúpula na parte superior;
  • Tinha cor clara, descrita como cinza ou branca em algumas entrevistas.

2 — FORMATO DO OBJETO AVISTADO

Não existe nenhum registro de outras testemunhas da região. Moradores de outros sítios nunca disseram ter visto um objeto voando baixo, com essa descrição, nos dias anteriores ou mesmo posteriores aos acontecimentos principais na cidade de Varginha.

Existem alguns depoimentos sobre o avistamento de luzes não identificadas em épocas anteriores e posteriores ao dia 20 de janeiro de 1996, mas nada foi confirmado como tendo ligação direta com os eventos relacionados à Varginha naquela época. Também não há outros relatos de objetos voadores com formato de charuto.

Não há como afirmar que o casal não viu algo. Porém, é importante considerar a possibilidade de que eles tenham presenciado um fenômeno incomum ou raro e, posteriormente, associado aquilo à imagem de um “submarino voador”.

O relato é forte e aceito como um dos eventos principais dentro do Caso Varginha. Porém, assim como quase tudo o que envolve os acontecimentos daquela época, ele carece de um corpo de evidências independente.

Alguns eventos meteorológicos incomuns também podem ter contribuído para uma percepção distorcida de algo que o casal não conseguiu identificar no momento em que presenciou o acontecimento.

É importante lembrar que, na maioria das entrevistas, o casal afirma que a noite estava limpa. Porém, em uma entrevista concedida ao canal de Marco Leal, quando perguntado sobre as condições daquela madrugada, Eurico respondeu:

“...Era madrugada, né? Madrugada clara, né? Porque tinha dado uma chuva, até na madrugada tava bem clara.”

A possibilidade de uma percepção alterada

É conhecido que algumas nuvens podem parecer mais baixas após uma chuva, devido a uma combinação de fatores atmosféricos e de percepção visual. Isso pode contribuir para uma falsa noção de distância e altura.

Após a chuva, o ar próximo à superfície fica mais saturado de umidade devido à evaporação da água no solo e à precipitação que acabou de ocorrer. Nuvens se formam quando o vapor de água se condensa, o que acontece quando o ar atinge o ponto de orvalho. Em condições de alta umidade, esse ponto pode ser atingido em altitudes mais baixas, permitindo que a base das nuvens se forme mais próxima do solo.

O orvalho se forma principalmente durante a noite e a madrugada, quando superfícies como grama, folhas e carros perdem calor e esfriam rapidamente, atingindo uma temperatura na qual o vapor d’água presente no ar se condensa em pequenas gotas. Esse fenômeno é especialmente favorecido por noites claras e úmidas e por dias quentes.

Durante uma tempestade, correntes de ar descendentes (downdrafts) podem transportar ar frio e úmido da nuvem para baixo. Esse ar, mais frio e denso, pode se espalhar próximo à superfície, mantendo condições favoráveis à formação de nuvens baixas ou neblina após a chuva.

☁️ Por que uma nuvem pode parecer mais próxima?

Nuvens de tempestade (cumulonimbus) são naturalmente muito espessas e escuras na base, o que pode contribuir para a sensação de estarem mais próximas do solo, mesmo estando a grandes altitudes. Após a chuva, nuvens residuais ou novas formações de baixa altitude, como as nuvens estratiformes (stratus), também podem parecer visualmente mais próximas quando contrastadas com partes do céu que começam a clarear em altitudes superiores.


Tipos de formação de nuvens


Camada de nuvens formada poucos metros acima do nível do solo de um campo

Segundo informações do próprio CPTEC/INPE, nuvens são conjuntos visíveis de partículas minúsculas de matéria, como gotículas d’água e/ou cristais de gelo, suspensas no ar. Uma nuvem se forma na atmosfera como resultado da condensação do vapor d’água.

Dentre elas, estão as nuvens baixas, como:

☁️ Stratus

Camada nebulosa, cinzenta, de base uniforme e definida. É constituída por gotículas de água e, quando espessa, pode conter gotículas de chuvisco. Pode ser tão tênue que permite distinguir nitidamente o contorno do Sol ou da Lua. Quando produz precipitação, ela ocorre sempre na forma de chuvisco.

Essas nuvens podem se formar muito próximas do solo, produzindo restrição da visibilidade horizontal semelhante à de um nevoeiro denso.

☁️ Stratoscumulus

Camada de nuvens cinzentas ou esbranquiçadas, quase sempre com porções escuras, constituída por massas em mosaico, glóbulos, rolos ou outras formas, de aspecto não fibroso, ligadas ou não entre si.

Mantém o céu nublado e, muitas vezes, está associada a chuva fraca e contínua. Geralmente, forma-se quando há uma forte circulação marítima, com ventos vindos do oceano ou das direções sudeste/leste. Também pode surgir em vales e em áreas com condições atmosféricas específicas que resultam em uma camada rasa de ar instável próxima à superfície, sobreposta por ar mais estável.

☁️ Consultar glossário do CPTEC/INPE

Se considerarmos o relato do senhor Eurico e da senhora Oralina, eles afirmam que o objeto voava muito devagar. Segundo o casal, o objeto teria percorrido cerca de 500 metros durante aproximadamente 40 minutos.

Usando uma fórmula simples, é possível calcular a velocidade aproximada desse deslocamento:

📐 Cálculo da velocidade

Velocidade = Distância ÷ Tempo

40 minutos = 2.400 segundos

v = 500 ÷ 2.400 ≈ 0,2083 m/s

Convertendo para km/h:

0,208 × 3,6 ≈ 0,75 km/h

Velocidade aproximada: 0,21 m/s ou 0,75 km/h

O resultado chama atenção: o deslocamento calculado seria inferior a 1 km/h. Isso representa uma velocidade extremamente baixa para um objeto que estivesse efetivamente voando de forma convencional.

As nuvens baixas, por outro lado, deslocam-se de acordo com os ventos predominantes na altitude em que se encontram. Em condições típicas, suas velocidades podem ficar na faixa de 15 a 60 km/h, embora o valor exato dependa das condições atmosféricas e da intensidade dos ventos naquela altitude.

Próximo à superfície, os ventos tendem a ser mais fracos devido ao atrito com o terreno. Ainda assim, a velocidade calculada para o objeto — 0,75 km/h — é muito inferior à faixa apresentada para o deslocamento de nuvens.

Portanto, o cálculo não demonstra que o objeto era uma nuvem. Ele apenas mostra que, se as estimativas de 500 metros e 40 minutos estiverem corretas, o deslocamento relatado teria sido excepcionalmente lento.

Tipos de nuvens baixas e com formatos incomuns registradas em diferentes localidades

3 — MAS NUVENS PODEM ASSUSTAR O GADO?

Não há evidências científicas que sugiram que o gado sinta medo das nuvens em si. O comportamento dos bovinos, no entanto, pode ser afetado por mudanças climáticas e fenômenos atmosféricos associados a nuvens escuras, como tempestades, chuva, vento e alterações nas condições atmosféricas.

O que os bovinos podem temer ou ao qual podem reagir inclui:

🔊 Barulhos altos e repentinos

Trovões e ventos fortes podem assustar o gado, provocando movimentos rápidos e erráticos, vocalização e movimentos intensos da cauda.

🌑 Mudanças na luminosidade

A escuridão repentina causada por nuvens de tempestade espessas pode ser um fator de estresse. Os bovinos possuem características visuais diferentes das humanas, o que pode dificultar a percepção de sombras, contrastes e obstáculos no solo em determinadas condições de iluminação.

👁️ Visão e sombras

Existe uma ideia bastante difundida de que as vacas podem hesitar ou reagir diante de sombras fortes no chão porque sua percepção de profundidade e contraste é diferente da humana. Uma sombra inesperada pode, em determinadas situações, ser interpretada como um obstáculo ou alteração no terreno.

Isso pode influenciar a forma como os animais se movimentam sob nuvens escuras, mas não significa que exista um “medo de nuvens” no sentido emocional humano.

🌧️ Desconforto físico

O excesso de chuva e a consequente formação de lama podem contribuir para problemas de saúde, incluindo alterações nos cascos e aumento das condições favoráveis a determinadas doenças. Por isso, os animais podem buscar locais mais secos e confortáveis para permanecer.

Mudanças de temperatura e umidade também podem provocar desconforto térmico.

🐄 Instinto de autopreservação

Existe uma crença popular, sem respaldo científico, de que as vacas se deitam para preservar um pedaço de grama seca antes da chuva, conservar calor ou até mesmo fugir da direção de uma tempestade.

Embora essas explicações específicas não tenham sustentação científica, os animais realmente podem reagir às condições ambientais que antecedem ou acompanham mudanças no tempo.

🏡 Instinto de abrigo

O gado pode procurar abrigo diante de ventos fortes, chuva excessiva e frio. Em situações de calor intenso, também pode buscar sombra e água fresca para reduzir o estresse térmico.

A formação de nuvens escuras ou mudanças perceptíveis no ambiente podem coincidir com a aproximação desses eventos climáticos e, consequentemente, alterar o comportamento do rebanho.

O ponto principal: o medo ou a agitação está mais relacionado aos efeitos práticos e sensoriais das condições meteorológicas — vento, chuva, trovões, frio, mudanças de luminosidade e outras alterações ambientais — do que à simples presença visual das nuvens.

Sabendo disso, podemos considerar que uma nuvem baixa e incomum poderia coincidir com uma reação do gado, mas não necessariamente porque os animais “temeriam” a nuvem. A agitação poderia estar relacionada às mudanças no ambiente, à sombra projetada sobre o solo, ao vento, à chuva ou a outros estímulos associados à mudança do tempo.

Uma alteração no comportamento de um ou mais animais poderia, então, provocar uma reação em cadeia e fazer com que parte ou até mesmo todo o rebanho se movimentasse de forma repentina.

🎥 Registros em vídeo

Existem inúmeros vídeos no YouTube que mostram fazendeiros e criadores registrando situações em que o gado se assusta, foge ou busca abrigo diante da aproximação de chuva e de mudanças nas condições meteorológicas.

▶️ Assistir ao vídeo 1 no YouTube

▶️ Assistir ao vídeo 2 no YouTube

📚

A análise continua

Esta análise chega até a Seção 3 do estudo sobre o avistamento de Eurico e Oralina de Freitas. O material original possui outras questões e hipóteses que não foram abordadas neste artigo.

Por isso, o tema continuará em outros artigos, permitindo analisar cada hipótese com mais calma e separar os relatos, as evidências, as possíveis explicações convencionais e as contradições encontradas ao longo da investigação.

🔎 O Caso Varginha ainda tem muita coisa para colocar na mesa.

📑 Fontes, referências e créditos

Referências utilizadas na pesquisa até a Seção 3

🔬 Pesquisa principal

Joab Castro — autor da pesquisa
Pesquisa realizada em fevereiro de 2026.

Objeto de estudo: depoimentos do casal de caseiros Eurico Rodrigues de Freitas e Oralina Augusta de Freitas.

📚 Livros e obras citadas

  • Incidente em Varginha — Vitório Pacaccini e Fernanda Pires, 1ª edição.
  • Varginha: Toda a Verdade Revelada — Marco Antonio Petit.

🔎 Pesquisadores e ufólogos referenciados

  • Ubirajara Rodrigues — primeiras investigações e informações sobre o avistamento.
  • Vitório Pacaccini — coleta de depoimentos e informações sobre horários e dimensões.
  • Marco Antonio Petit — questionamentos relacionados à data do evento.
  • Marco Leal — entrevista em que Eurico relata as condições meteorológicas da madrugada.

📺 Programas e entrevistas históricas

Fantástico — TV Globo, 1996
Primeira entrevista de Eurico de Freitas, na qual é mencionada a data de 17 de janeiro.

▶️ Assistir à entrevista no YouTube

Comando da Madrugada — Rede Manchete, 02/06/1996
Programa apresentado por Goulart de Andrade, no qual é mencionada a data de 19 de janeiro.

🌙☁️ Bases astronômicas e meteorológicas

Time and Date — calendário lunar e horários relacionados ao nascer da Lua em Varginha-MG, janeiro de 1996.

🌙 Consultar calendário lunar

CPTEC/INPE — informações técnicas sobre nuvens, condensação, ponto de orvalho, Stratus e Stratocumulus.

☁️ Consultar glossário do CPTEC/INPE

▶️ Canais e registros em vídeo

Fábrica de Noobs — Natanael
Análise técnica e levantamento astronômico relacionados à iluminação noturna e à ausência da Lua na data alegada.

@wellingtongomes1295
Vídeo: “GADO correndo da CHUVA”

▶️ Ver vídeo no YouTube

SINDI-MEL
Vídeo: “GADO SINDI CORRENDO COM MEDO DA CHUVA FOGE PARA MATA”

▶️ Ver vídeo no YouTube

📌 As referências acima correspondem às fontes, obras, entrevistas, pesquisadores, canais e bases de dados mencionados ou utilizados na análise até a Seção 3. As próximas partes da pesquisa serão abordadas em artigos posteriores.